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Ontem é História, O amanhã é Mistério e hoje é uma dádiva por isso de chama de Presente.

Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

Que musica escutas tão atentamente

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

Eugénio de Andrade

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

Vaso Chinês

Uma velha senhora chinesa possuía dois grandes vasos, cada um suspenso na extremidade de uma vara que ela carregava nas costas.
Um dos vasos era rachado e o outro era perfeito. Este último estava sempre cheio de água ao fim da longa caminhada do rio até casa, enquanto o rachado chegava meio vazio.
Durante muito tempo a coisa foi andando assim, com a senhora chegando a casa somente com um vaso e meio de água.
Naturalmente o vaso perfeito era muito orgulhoso do próprio resultado e o pobre vaso rachado tinha vergonha do seu defeito, de conseguir fazer só a metade daquilo que deveria fazer.
Depois de dois anos, reflectindo sobre a própria amarga derrota de ser 'rachado', o vaso falou com a senhora durante o caminho: 'Tenhovergonha de mim mesmo, porque esta rachadura que eu tenho faz-me perder metade da água durante o caminho até a sua casa...'
A velhinha sorriu:
Reparaste que lindas flores há somente do teu lado do caminho? Eu sempre soube do teu defeito e portanto plantei sementes de flores na beira da estrada do teu lado. E todos os dia, enquanto a gente voltava, tu regava-las.
Durante dois anos pude recolher aquelas belíssimas flores para enfeitar a mesa. Se tu não fosses como és, eu não teria tido aquelas maravilhas na minha casa.

Cada um de nós tem o seu próprio defeito. Mas é o defeito que cada um de nós tem, que faz com que nossa convivência seja interessante e gratificante.
É preciso aceitar cada um pelo que é... E descobrir o que há de bom nele.'

Portanto, meu 'defeituoso' amigo/a, tenha um bom dia e lembre-se deregar as flores do seu lado do caminho...

Terça-feira, Junho 17, 2008

It wakes me in the dawn

It wakes me in the dawn
With this voice of wish
Wake me, leave me excited.
I want your kisses.

Come, touch.
With these hands from velvet.
Come with his body, suffocate me.
What you want does everything.

Leave me with sleep during the day
Leave me drunk with your smile.
Invade me with your soft hands
Take me to the paradise.

Come mistreat me with such pleasure
Leave me soft in a spread out bed.
Come, with this his way of being...
I am dominated, I am won.

The love defeats me
When I am to your side.
The day dawns
My body is marked.

Marked with loud kisses
It wakes me in the dawn
With this voice of wish
Wake me, leave me excited.
I want your kisses.

Come, touch.
With these hands from velvet.
Come with his body, suffocate me.
What you want does everything.

Leave me with sleep during the day
Leave me drunk with your smile.
Invade me with your soft hands
Take me to the paradise.

Come mistreat me with such pleasure
Leave me soft in a spread out bed.
Come, with this his way of being...
I am dominated, I am won.

The love defeats me
When I am to your side.
The day dawns
My body is marked.

Marked with loud kisses
Done in this dawn

Desconheço o autor mas é.....

"Para ti Tigresa ;) "

Segunda-feira, Outubro 08, 2007

Canção do Amor Sereno

Vem sem receio: eu te recebo
como um dom dos deuses do deserto
que decretaram minha trégua
e permitiram
que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
que meus dedos não te prendam
mas contornem teu raro perfil
como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
e conforto, ponto de partida para a fundação do teu reino,
em que a sombra seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
como se dançasse
numa praia uma menina.


Lya Luft

Sexta-feira, Setembro 28, 2007

Casa da Paixão

A sarça incendeia-se

dois corpos
moldam a areia

Sonho-te numa praça deserta
como desertos são
os momentos que me cercam
sonho-te suspensa nas nuvens
como suspenso estou no movimento
que me envolve
sonho-te ainda ancorada
num cais de pedras cinzentas
e macias
como os presságios
que pressagio
sonho-te e no sonho
me revejo para depois acordar
e partir sem remorsos
nem rodeios

imagino-te
inquieta
a fuga sempre pronta
a voz denuncia
a gargalhada branca

Sei-te submersa
árvore única
escondida
no meu jardim
de papel

Vejo-te hoje deitada
o sol delirante
entorna maresia
a teus pés flores outonais
ornam o momento
que agora germinou
no meu errante
pensamento

És assim adormecida
entre nevoeiros
aquário transparente invisível
onde navego
e não sei ver
mergulho-te os olhos selvagens
que não podem ler

vem
são horas de correr viagem
antes de te mentir verdades
que a estrada conduz à miragem
é lá que devemos morrer

De pé ou sentada
o rosto envolto pelas mãos
o gesto o sinal o sentido
revejo-te
ainda agora
a acordar

Encontro
enlaço
abraço

sabemos ambos
a face ocultada lua
Se te escrevesse uma carta
não a lerias
as minhas cartas nada dizem
ninguém as leu
se te cantar um poema
não o entenderás
também ninguém os entendeu
se te disser palavras
palavras escorregadias
não acreditarás
jamais alguém acreditou
mas se te pegar na cabeça e a morder
se te abraçar com os olhos
se te apertar numa vertigem
aqui começará a alquimia

daremos à luz
um amor novo
que se não sabia

Hoje é o dia
de eu te descer pelos dedos
de entrar na tua mão
agora é hora
de eu te beber as palavras de te segurar os gestos
já é o momento
de te abraçar os pensamentos
e da tua alma desvendar
os destinos inconcretos

Descalça caminhaste
sobre a ria
mãos abertas
navegando
águas de prata
tu e a ria
à procura do mar

A manhã acordara
já não era cedo
fomos ao lago
atravessamo-lo na primeira
maré
havia uma ilha
onde o silêncio crescia
alimento das águas
que corriam
em rodapé

mudos no movimento
adivinhando o futuro
morámos o momentos
aboreando sem remorsos
aquele envelhecer prematuro

amanhã seria longe
agora era a certeza
preferimos brincar
com a amargura
confundi-la
entre a toalha e a mesa

caminhámos coisas
que não conhecíamos
líquidos passos errando
nessa manhã podre e fria
o teu olhar como sol poente
no meu
encontrando o fim do dia

Prendo-te o olhar

caminho-te os lábios

num sorriso virgem
dobro-te o queixo

navego-te os cabelos
desaguo na tua garganta

fico-me perdido

salgada a melodia
que me encanta

O rio corre
eu caminho numa margem
tu caminhas na outra

olho para o rio
e para a margem

vejo o teu reflexo
na água turva

a tua sombra
na rocha recortada
às vezes não vejo nada
no entanto caminho
e sei que também tu
vais
entregue à caminhada

Sou-te
eterna desconhecida
uma flor ensanguentada
uma fagulha húmida
cicatrizante

sei-te
procurando onde
não sabes
ave única
no céu desenhada

sopro-te
rara palavra
que não conheces
brandida ácea lâmina
afiada
adormeço-te
no doce gume
de uma espada

Árvore marítima
do líquido sopro
desabrochada
vertical sobre a onda
flutuando nas águas
alheia ao mudar
dos ventos

Entrego-te ao vento
guardador de rebanhos tresmalhados
entrego-te à trovoada
senhora dos céus encrespados
entrego-te ao sol e à lua
domésticos deuses
entrego-te às palavras que não dissemos
(só essas são verdadeiras)
e a todas que não diremos
entrego-te porque
a ninguém pertences
entrego-te porque nem
tu podes agarrar-te
entrego-te porque
a máscara te confunde
e antes que a solidão te inunde
entrego-te para não ter
que te matar

Somos
dois barcos
sem horizonte

Luís Tobias in "As Quatro Casas"

Quarta-feira, Agosto 08, 2007

Às escuras o Amor

Às escuras o amor é inventar de novo
as iluminações de vogar à deriva

É sequestrar o dia É caminhar de noite
numa rua de Roma a comer melancia

É fazer explodir um palácio barroco
É durante a explosão cair numa armadilha


David Mourão Ferreira

Quarta-feira, Julho 18, 2007

Tomara

Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais


Vinicius de Moraes