depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui
onde encontrarás esta carta
serão talvez nove horas
a rádio cospe anúncios de sabonetes e detergentes
o irritante pi do sinal horário
suspiras ao pegar no envelope
e apenas o teu suspiro te parecerá deslocado
de resto há muito que os teus dias são o decalque uns dos outros
escrevo-te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora
o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do meu delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã
espaço de penumbras e de incertezas
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite
este vácuo lento este visco dos espelhos
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele
começa a asfixia o perigo de ter amado
no mais profundo segredo das noites devorávamo-nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto
como um presságio
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras
revelavam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido
Al Berto
Ontem é História, O amanhã é Mistério e hoje é uma dádiva por isso de chama de Presente.
quinta-feira, junho 29, 2006
segunda-feira, junho 26, 2006
Carta da Árvore Triste
quando te levantares e abrires as janelas
a luz espalhar-se-á por toda a casa
cobrirá suavemente os objectos e o mobiliário
devolvendo-lhes os seus pesos formas e volumes
acordá-los-á para as quotidianas utilizações
e as petúnias em plástico na jarra da sala agitar-se-ão
à tua passagem em direcção à cozinha
a cidade entrará repentinamente pela casa adentro
um grito nas traseiras sacode-te para o interior baço da manhã
buzinas sirenes
o telefone do vizinho atravessando as paredes
gritos de crianças derrapagens estridentes
outro telefone
uma porta que se fecha com estrondo
passas o olhar pelo jornal de ontem em cima da mesa
lês:
um papagaio valioso com 32 anos
capaz de falar em 3 idiomas
foi morto por um jovem drácula de nome punk
Carlinhos Monóxido
o papagaio foi encontrado morto e de olhos saídos das órbitas
suspeita-se que...
o telefone parou de tocar
atiras o jornal para o caixote do lixo
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono
surge subitamente nítido e coberto de luz
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida
no fundo dalguma gaveta forrada a papel-manteiga
o dia instalar-se-á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado
AL BERTO
a luz espalhar-se-á por toda a casa
cobrirá suavemente os objectos e o mobiliário
devolvendo-lhes os seus pesos formas e volumes
acordá-los-á para as quotidianas utilizações
e as petúnias em plástico na jarra da sala agitar-se-ão
à tua passagem em direcção à cozinha
a cidade entrará repentinamente pela casa adentro
um grito nas traseiras sacode-te para o interior baço da manhã
buzinas sirenes
o telefone do vizinho atravessando as paredes
gritos de crianças derrapagens estridentes
outro telefone
uma porta que se fecha com estrondo
passas o olhar pelo jornal de ontem em cima da mesa
lês:
um papagaio valioso com 32 anos
capaz de falar em 3 idiomas
foi morto por um jovem drácula de nome punk
Carlinhos Monóxido
o papagaio foi encontrado morto e de olhos saídos das órbitas
suspeita-se que...
o telefone parou de tocar
atiras o jornal para o caixote do lixo
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono
surge subitamente nítido e coberto de luz
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida
no fundo dalguma gaveta forrada a papel-manteiga
o dia instalar-se-á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado
AL BERTO
sexta-feira, junho 23, 2006
Lápide
a contínua escuridão torna-se claridade
iridescência lume
que incendeia o coração daquele cujo ofício
é escrever e olhar o mundo a partir da treva
humildemente
foi este o trabalho que te predestinaram
viver e morrer
nesse simulacro de inferno
meu deus!
tinha de escolher a melhor maneira de arder
até que de mim nada restasse senão um osso
e meia dúzia de sílabas sujas
calcinadas
Al Berto
iridescência lume
que incendeia o coração daquele cujo ofício
é escrever e olhar o mundo a partir da treva
humildemente
foi este o trabalho que te predestinaram
viver e morrer
nesse simulacro de inferno
meu deus!
tinha de escolher a melhor maneira de arder
até que de mim nada restasse senão um osso
e meia dúzia de sílabas sujas
calcinadas
Al Berto
terça-feira, junho 20, 2006
Nocturno de Chopin
Gosto de juntar palavras
no teu corpo
ouvir da tua voz
o sangue em fogo
Sentir a tua seiva a borbulhar
uma prece sedenta
em turbilhão
um jacto de magia
Beber dum trago voraz
as tuas carnes
depois cozer poemas
por parir
Misturar as tuas juras
nos meus dedos
deixar sílabas loucas
nas encostas
Depois acordar na alvorada
ver o teu torso nu adormecido
e saber que não foi sexo nem desejo
apenas um nocturno de Chopin
Luis Graça
no teu corpo
ouvir da tua voz
o sangue em fogo
Sentir a tua seiva a borbulhar
uma prece sedenta
em turbilhão
um jacto de magia
Beber dum trago voraz
as tuas carnes
depois cozer poemas
por parir
Misturar as tuas juras
nos meus dedos
deixar sílabas loucas
nas encostas
Depois acordar na alvorada
ver o teu torso nu adormecido
e saber que não foi sexo nem desejo
apenas um nocturno de Chopin
Luis Graça
quarta-feira, junho 14, 2006
Horas demoradas
procurei nas horas demoradas, o teu canto de corais.
a tua auréola azul, céu que havia no fundo do mar.
procurei nos teus abraços, o abraço mais largo das estrelas
e na noite as ondas que enrolavam nas mãos.
procurei os passos que deixavas por cima das águas,
os sinais que desenhavas no céu com as mãos pequeninas.
procurei o leite da tua pele, que derretia na minha boca,
os sabores dos frutos, os silêncios das chuvas.
procurei o teu nome na areia, escrito com as mãos nuas.
os laços que amarras-te mil planetas no meu colo.
procurei por dentro das marés o sal dos teus beijos,
as viagens que o eco da tua voz levava e trazia no vento.
procurei nos pássaros o teu voo imperial,
as serpentinas de cores que arrastavas no céu pelas manhãs.
procurei nos búzios o som do palpitar do teu peito,
que abria em murmúrios de ternura, os espasmos da terra.
diz-me se te vou encontrar outra vez,
para de novo aprender a voar.
Pedro Lucas, mas...bem que gostava ter sido eu :))
a tua auréola azul, céu que havia no fundo do mar.
procurei nos teus abraços, o abraço mais largo das estrelas
e na noite as ondas que enrolavam nas mãos.
procurei os passos que deixavas por cima das águas,
os sinais que desenhavas no céu com as mãos pequeninas.
procurei o leite da tua pele, que derretia na minha boca,
os sabores dos frutos, os silêncios das chuvas.
procurei o teu nome na areia, escrito com as mãos nuas.
os laços que amarras-te mil planetas no meu colo.
procurei por dentro das marés o sal dos teus beijos,
as viagens que o eco da tua voz levava e trazia no vento.
procurei nos pássaros o teu voo imperial,
as serpentinas de cores que arrastavas no céu pelas manhãs.
procurei nos búzios o som do palpitar do teu peito,
que abria em murmúrios de ternura, os espasmos da terra.
diz-me se te vou encontrar outra vez,
para de novo aprender a voar.
Pedro Lucas, mas...bem que gostava ter sido eu :))
segunda-feira, junho 12, 2006
No alpendre...
No alpendre, espero por ti.
Os arbustos cresceram. As folhas caíram
O poço secou. As pessoas partiram.
É mais difícil quando vem o frio
A brisa chora nos meus olhos.
E nos meus olhos era onde sonhavas
Teus sonhos dentro de mim.
Envelheci com as árvores.
Com o cair das folhas no Outono.
Agora já não dão frutos.
Oiço apenas o barulho do vento
Que atravessa os ramos,
Que atravessa dentro de mim, vazio.
A noite não acaba. O dia não acaba.
Nada se não silêncio incessante.
Espero por ti, no alpendre.
Sei que não voltas. Mas ainda te quero abraçar
A brisa, chora nos meus olhos.
Porque foi nos meus olhos
Com as tuas mãos pequeninas,
Que aprendeste a sonhar
Pedro Lucas
Os arbustos cresceram. As folhas caíram
O poço secou. As pessoas partiram.
É mais difícil quando vem o frio
A brisa chora nos meus olhos.
E nos meus olhos era onde sonhavas
Teus sonhos dentro de mim.
Envelheci com as árvores.
Com o cair das folhas no Outono.
Agora já não dão frutos.
Oiço apenas o barulho do vento
Que atravessa os ramos,
Que atravessa dentro de mim, vazio.
A noite não acaba. O dia não acaba.
Nada se não silêncio incessante.
Espero por ti, no alpendre.
Sei que não voltas. Mas ainda te quero abraçar
A brisa, chora nos meus olhos.
Porque foi nos meus olhos
Com as tuas mãos pequeninas,
Que aprendeste a sonhar
Pedro Lucas
sexta-feira, junho 09, 2006
TODOS TEMOS ALCÁCER-QUIBIR NOS CORAÇÕES

Tive uma namorada
boa na cama e na alma
pequeno canyon sempre aberto aos índios
com caldo verde e chouriço até às tantas
Tinha olhos de lago a beijar a lua
e dois seios meiguinhos com sabor a fruta
um par de atalhos em seda como flamingos
amigos do peito com bom coração
Fugiu-me numa manhã de nevoeiro
apanhei-a nas dunas, bem ao longe
chupando com lábios de névoa
o sexo nebuloso de D. Sebastião
Luis Graça
quarta-feira, junho 07, 2006
Uma Obra-Prima da Poesia Brasileira
Pássaro de rico é canário,
pássaro de pobre urubu,
rabo de rico é ânus,
e rabo de pobre é cu.
Moça rica é bacana,
moça pobre é xereta,
periquita de rica é vagina,
a da pobre é buceta.
Rico correndo é atleta,
pobre correndo é ladrão,
ovo do rico é testículo,
o do pobre é colhão.
O rico usa bengala,
o pobre usa muleta,
o rico se masturba,
o pobre bate punheta.
Composta por uma aluna do Colégio Bom Conselho (Fortaleza-CE)
pássaro de pobre urubu,
rabo de rico é ânus,
e rabo de pobre é cu.
Moça rica é bacana,
moça pobre é xereta,
periquita de rica é vagina,
a da pobre é buceta.
Rico correndo é atleta,
pobre correndo é ladrão,
ovo do rico é testículo,
o do pobre é colhão.
O rico usa bengala,
o pobre usa muleta,
o rico se masturba,
o pobre bate punheta.
Composta por uma aluna do Colégio Bom Conselho (Fortaleza-CE)
segunda-feira, junho 05, 2006
Vocês têm.......
A senhora idosa, perto dos 90 anos, mas toda despachada, numa farmácia:
- Vocês têm analgésicos?
- Temos sim senhora.
- Vocês têm remédio contra reumatismo?
- Temos sim senhora.
- Vocês têm camisa de vénus lubrificada?
- Temos sim senhora.
- Vocês têm Viagra?
- Vocês têm pomada anti-rugas?
- Vocês têm pomada para hemorroidas?
- Vocês têm bicarbonato?
- Vocês têm antidepressivos?
- Vocês têm soníferos?
- Vocês têm remédio para a memória?
- Vocês têm fraldas para adultos?
- Temos sim senhooooora.
- Vocês têm...
- Minha senhora, por favor! Aqui é uma farmácia, nós temos isso tudo. Qual é o seu problema, afinal?
- É que vou casar no fim do mês e o meu noivo tem 85 anos. Gostaríamos de saber se podemos deixar a nossa lista de casamento aqui...!
- Vocês têm analgésicos?
- Temos sim senhora.
- Vocês têm remédio contra reumatismo?
- Temos sim senhora.
- Vocês têm camisa de vénus lubrificada?
- Temos sim senhora.
- Vocês têm Viagra?
- Vocês têm pomada anti-rugas?
- Vocês têm pomada para hemorroidas?
- Vocês têm bicarbonato?
- Vocês têm antidepressivos?
- Vocês têm soníferos?
- Vocês têm remédio para a memória?
- Vocês têm fraldas para adultos?
- Temos sim senhooooora.
- Vocês têm...
- Minha senhora, por favor! Aqui é uma farmácia, nós temos isso tudo. Qual é o seu problema, afinal?
- É que vou casar no fim do mês e o meu noivo tem 85 anos. Gostaríamos de saber se podemos deixar a nossa lista de casamento aqui...!
sexta-feira, junho 02, 2006
Nalgum lugar
Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
o teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos lindamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
me compele com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
e. e. cummings
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto
o teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu me tenha fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando subtilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa
ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos lindamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;
nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder da tua imensa fragilidade: cuja textura
me compele com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira
(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas
e. e. cummings
quarta-feira, maio 31, 2006
Fernando Pessoa
XVIII
Iô! Iô! Escorre um suco de raiva e prazer
Por entre os corpos em mescla enredados
Que ardem por despir-se e guerra fazer
Sobre a carne uns dos outros, dados
Na luta que enche o ventre p’ra leite deixar
Nas tetas que um homem souber conquistar,
Combate em raiva de ajustar, unir,
E não de magoar ou de se ferir!
Iô! Iô! Embriagai-vos com o dia e a hora!
Gritai, gargalhai, esmagai agora
O próprio pensar em clamor e verdade,
Não escape uma queixa de morte ou idade!
Tudo juventude agora e as pequenas
Dores, que vibram nas veias plenas,
São elas cheias de prazer excitado
Para suspender antes de saciado.
Tudo, excepto a carne, da mente tirai,
E o dar do leite macho que faz viver!
Repiques de alegria, como erva arrancai
Do chão da alma onde veio crescer!
Fazei o vosso cio imenso jubilar
Com soltas risadas e vosso falar,
Como se a terra, o céu em brasa, o ar tremente
Soassem qual címbalo, poderosamente!
Poesia Inglesa I(tradução de Luísa Freire)
Iô! Iô! Escorre um suco de raiva e prazer
Por entre os corpos em mescla enredados
Que ardem por despir-se e guerra fazer
Sobre a carne uns dos outros, dados
Na luta que enche o ventre p’ra leite deixar
Nas tetas que um homem souber conquistar,
Combate em raiva de ajustar, unir,
E não de magoar ou de se ferir!
Iô! Iô! Embriagai-vos com o dia e a hora!
Gritai, gargalhai, esmagai agora
O próprio pensar em clamor e verdade,
Não escape uma queixa de morte ou idade!
Tudo juventude agora e as pequenas
Dores, que vibram nas veias plenas,
São elas cheias de prazer excitado
Para suspender antes de saciado.
Tudo, excepto a carne, da mente tirai,
E o dar do leite macho que faz viver!
Repiques de alegria, como erva arrancai
Do chão da alma onde veio crescer!
Fazei o vosso cio imenso jubilar
Com soltas risadas e vosso falar,
Como se a terra, o céu em brasa, o ar tremente
Soassem qual címbalo, poderosamente!
Poesia Inglesa I(tradução de Luísa Freire)
terça-feira, maio 30, 2006
Pedido
Larga tudo
e vem me espasmar
É teu direito
e seja o meu também
Serei tua ré
não tenha complacência
e na demência
nos percamos tontos
É meu dever
perder todos os pontos
calar tua boca
à minha, sem clemência
beijar-te as pernas
grossas, entre elas
brincar de línguas
em rodamoinhos
ouvir o arfar
balouços de carinhos
É meu dever
ser tua ré-confessa
É meu dever
me dar-te às avessas
Vem se enroscar!
Penetre no meu rio
saudoso
caudaloso
cio
Vem se espelhar!
Penetre neste olhar
a te espasmar
vem me espasmar
Isabel Machado
e vem me espasmar
É teu direito
e seja o meu também
Serei tua ré
não tenha complacência
e na demência
nos percamos tontos
É meu dever
perder todos os pontos
calar tua boca
à minha, sem clemência
beijar-te as pernas
grossas, entre elas
brincar de línguas
em rodamoinhos
ouvir o arfar
balouços de carinhos
É meu dever
ser tua ré-confessa
É meu dever
me dar-te às avessas
Vem se enroscar!
Penetre no meu rio
saudoso
caudaloso
cio
Vem se espelhar!
Penetre neste olhar
a te espasmar
vem me espasmar
Isabel Machado
segunda-feira, maio 29, 2006
Anespirais
espirais cobrem meu corpo
despencam helicoidais
ideogramas/nanquim/pincéis
tatuagens
não breves sinais
rufar de tambores
febre cerebral/enxaquecas
furor
humor e tumor
dores fatais
não sei quanto tempo
sentado na praça
contando cachaça
bebendo desgraça
sem você
sou vazio e sem cenho
criança sem colo da mãe
me lembro quando amar
não doía
pérola na língua
vermelho carmim
agora carrego um olhar flutuante
choro lendo hai-kais
chuva sobre bambuais
tensão de garoa
uma lata vazia flutua no ar
um dia ouvi alguém que esqueci
sussurrou
em japonês
amor
se diz "ai"
Edson Bueno de Camargo
despencam helicoidais
ideogramas/nanquim/pincéis
tatuagens
não breves sinais
rufar de tambores
febre cerebral/enxaquecas
furor
humor e tumor
dores fatais
não sei quanto tempo
sentado na praça
contando cachaça
bebendo desgraça
sem você
sou vazio e sem cenho
criança sem colo da mãe
me lembro quando amar
não doía
pérola na língua
vermelho carmim
agora carrego um olhar flutuante
choro lendo hai-kais
chuva sobre bambuais
tensão de garoa
uma lata vazia flutua no ar
um dia ouvi alguém que esqueci
sussurrou
em japonês
amor
se diz "ai"
Edson Bueno de Camargo
quinta-feira, maio 25, 2006
Estás

estás nas manhãs remelosas. nas noites de insónia. nos discos
em auto-repeat. nas imagens que invento. nas palavras que
junto sem sentido. nos filmes de amor trágico. nos livros
que falam de coisas sérias. nas manchetes sangrentas dos
tabelóides. na chávena de leite achocolatado. no ronronar
do gato que se deita a meu lado. no relato da partida de
futebol no canal codificado. em mais um cigarro que
sorvo. e ainda no fastio a que me obrigo. no chão da sala
polvilhado de sapatos. nas folhas de papel riscadas.
foda-se. estás em tudo. em todas as coisas. em todos os sentidos
que confundo. em cada sonho. em cada pesadelo com a
morte. nas fugas. nas corridas infundadas contra o tempo.
em mim. apenas em mim insistes em estar.
longe
quarta-feira, maio 24, 2006
Smgarakarika Kumaradadatta
segunda-feira, maio 22, 2006
Encontro
Nada entre nós tem o nome de pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem.
Porém, se se abrir uma porta para o verão,
vemos as mesmas coisas - o que fica para além
da planície e da falésia; a ilha, um rebanho,
um barco à espera de partir,
uma palavra que nunca escreveremos. Entre nós
o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.
Poema escrito por Rosa Lima, e que me foi facultado por uma viciada em poesia.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem.
Porém, se se abrir uma porta para o verão,
vemos as mesmas coisas - o que fica para além
da planície e da falésia; a ilha, um rebanho,
um barco à espera de partir,
uma palavra que nunca escreveremos. Entre nós
o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.
Poema escrito por Rosa Lima, e que me foi facultado por uma viciada em poesia.
quinta-feira, maio 18, 2006
In extremis
Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...
E um dia assim! de um sol assim! e assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...
E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...
Eu, com o frio a crescer no coração, – tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!
E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!
Olavo Bilac
Assim! de um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria,
Fria! postos nos meus os teus olhos molhados,
E apertando nos teus os meus dedos gelados...
E um dia assim! de um sol assim! e assim a esfera
Toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
Despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...
E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! e este medo!
Nós dois... e, entre nós dois, implacável e forte,
A arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...
Eu, com o frio a crescer no coração, – tão cheio
De ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
A boca que beijava a tua boca ardente,
A boca que foi tua!
E eu morrendo! e eu morrendo
Vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
Tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
A delícia da vida! a delícia da vida!
Olavo Bilac
quarta-feira, maio 17, 2006
Quase de nada místico
Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,
e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:
poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.
Ana Luísa Amaral
terça-feira, maio 16, 2006
Padre Nosso

Uma solteirona descobre que uma amiga ficou grávida só com uma Avé Maria que rezou na igreja duma aldeia perto.
Uns dias depois foi a essa aldeia e diz a solteirona para o Padre:
- Bom dia Padre.
- Bom dia minha filha. Em que posso ajudar-te?
- Sabe Padre, soube que uma amiga minha veio aqui e ficou grávida só com uma Avé Maria.
- Não minha filha, foi com um Padre Nosso mas já o despedimos
sexta-feira, maio 12, 2006
Sophia
Houve um tempo de heróis, lágrimas e espera,
um tempo de punhais
na noite mais incerta;
houve um tempo de dor,
uma oscilação da alma.
Houve um tempo em que a tua voz se cingiu
à coroa das espadas;
um tempo de sal depositado nos teus lábios;
houve um tempo de cantos, ondas e de estrelas
na branca manhã que o sono nos revela.
E houve um tempo de poemas,
um tempo de palavras,
um tempo (já esquecido)
de música e de festa.
Quem ousará dizer
que os teus heróis regressam,
quem poderá jurar que do amor reaparecem,
ao vento, os perfis das coisas que ele nos deu?
Antonio Mega Ferreira
um tempo de punhais
na noite mais incerta;
houve um tempo de dor,
uma oscilação da alma.
Houve um tempo em que a tua voz se cingiu
à coroa das espadas;
um tempo de sal depositado nos teus lábios;
houve um tempo de cantos, ondas e de estrelas
na branca manhã que o sono nos revela.
E houve um tempo de poemas,
um tempo de palavras,
um tempo (já esquecido)
de música e de festa.
Quem ousará dizer
que os teus heróis regressam,
quem poderá jurar que do amor reaparecem,
ao vento, os perfis das coisas que ele nos deu?
Antonio Mega Ferreira
Havia prometido, e resolvi colocar hj
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