Faz-me o favor de não dizer
absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor - muito melhor! -
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
Mário Cesariny de Vasconcellos
Ontem é História, O amanhã é Mistério e hoje é uma dádiva por isso de chama de Presente.
segunda-feira, janeiro 22, 2007
sábado, janeiro 20, 2007
Moro no teu olhar
Moro no teu olhar sereno e
espero por ti,
como se o meu corpo
fosse um cais de bruma
sem as marcas do tempo.
Os dias ficaram agora reféns
do aroma das tuas palavras simples.
Bruxinhaasolta
espero por ti,
como se o meu corpo
fosse um cais de bruma
sem as marcas do tempo.
Os dias ficaram agora reféns
do aroma das tuas palavras simples.
Bruxinhaasolta
sexta-feira, janeiro 12, 2007
MOMENTO
Nenhum sopro de ausência. Só a paixão
suave
de um sol íntimo
no seu ninho verde e alaranjado.
Simplicidade de substância volátil,
desejo no seu silêncio,
luxo indolente, frescura de vértebras solares.
intimidade perfeita
e que demora numa cândida estância.
Tudo se tornou interno neste espaço interior,
na delícia extrema de um sossego de folhas.
O que era fugaz converteu-se em tempo enamorado
e em tranquila doçura de hábitos.
António Ramos Rosa
suave
de um sol íntimo
no seu ninho verde e alaranjado.
Simplicidade de substância volátil,
desejo no seu silêncio,
luxo indolente, frescura de vértebras solares.
intimidade perfeita
e que demora numa cândida estância.
Tudo se tornou interno neste espaço interior,
na delícia extrema de um sossego de folhas.
O que era fugaz converteu-se em tempo enamorado
e em tranquila doçura de hábitos.
António Ramos Rosa
quinta-feira, janeiro 04, 2007
A Tarde Suspensa
Abro-te a porta e tomas-me por inteiro
Impúdica, mordo a tua boca
desço a minha língua no teu queixo,
no teu sexo maduro.
Nos teus olhos secretas lembranças
vagueiam sem reino,
Tiro aquele vestido oriental
e entre beijos infindos
pego as tuas mãos fortes
vou lambendo os teus dedos e, deixo-te
mergulhar suavemente no meu ventre.
Somos uma cálida maré a vazar
entre conchas quebradas e corais brancos,
enquanto a tarde suspensa desce sobre nós.
O autor.... autor conhecido... :))
Impúdica, mordo a tua boca
desço a minha língua no teu queixo,
no teu sexo maduro.
Nos teus olhos secretas lembranças
vagueiam sem reino,
Tiro aquele vestido oriental
e entre beijos infindos
pego as tuas mãos fortes
vou lambendo os teus dedos e, deixo-te
mergulhar suavemente no meu ventre.
Somos uma cálida maré a vazar
entre conchas quebradas e corais brancos,
enquanto a tarde suspensa desce sobre nós.
O autor.... autor conhecido... :))
quarta-feira, dezembro 20, 2006
José
E agora, José ?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, para onde ?
Carlos Drummond de Andrade
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, para onde ?
Carlos Drummond de Andrade
sexta-feira, dezembro 15, 2006
Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.
Mário Cesariny
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.
Mário Cesariny
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Pela noite
Pela noite concedias me o favor,
Abriam se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria “abençoada sejas!”
Sabendo como pretensiosa era a bênção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Arsenni Trakovskii
Abriam se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria “abençoada sejas!”
Sabendo como pretensiosa era a bênção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Arsenni Trakovskii
terça-feira, novembro 28, 2006
Entre os teus lábios
Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Eugénio de Andrade
sexta-feira, novembro 24, 2006
Não posso adiar o amor para outro século
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
António Ramos Rosa
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração.
António Ramos Rosa
quarta-feira, novembro 15, 2006
A um ti que eu inventei
Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
António Gedeão
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.
António Gedeão
segunda-feira, novembro 06, 2006
Yo no quiero más luz que tu cuerpo
Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío,
claridad absoluta. Transparencia redonda.
Limpidez cuya entraña, como el fondo del río,
con el tiempo se afirma, con la sangre se ahonda.
¡Qué lucientes materias duraderas te han hecho,
corazón de alborada, carnación matutina!
Yo no quiero más día que el que exhala tu pecho.
Tu sangre es la mañana que jamás se termina.
No hay más luz que tu cuerpo: no hay más sol. Todo ocaso.
Yo no veo las cosas a otra luz que tu frente.
La otra luz es fantasma, nada más, de tu paso.
Tu insondable mirada nunca gira al poniente.
Claridad sin posible declinar. Suma esencia
del fulgor que ni cede ni abandona la cumbre.
Juventud. Limpidez. Claridad. Transparencia,
Acercando los astros más cercanos de lumbre.
Claro cuerpo moreno de calor fecundante.
Hierba negra al origen. Hierba negra las sienes.
Trago negro los ojos, la mirada distante.
Día azul. Noche clara. Sombra clara que vienes.
Yo no quiero más luz que tu sombra dorada
donde brotan anillos de una hierba sombría.
En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada,
Para siempre es de noche: para siempre es de día.
Miguel Hernández
claridad absoluta. Transparencia redonda.
Limpidez cuya entraña, como el fondo del río,
con el tiempo se afirma, con la sangre se ahonda.
¡Qué lucientes materias duraderas te han hecho,
corazón de alborada, carnación matutina!
Yo no quiero más día que el que exhala tu pecho.
Tu sangre es la mañana que jamás se termina.
No hay más luz que tu cuerpo: no hay más sol. Todo ocaso.
Yo no veo las cosas a otra luz que tu frente.
La otra luz es fantasma, nada más, de tu paso.
Tu insondable mirada nunca gira al poniente.
Claridad sin posible declinar. Suma esencia
del fulgor que ni cede ni abandona la cumbre.
Juventud. Limpidez. Claridad. Transparencia,
Acercando los astros más cercanos de lumbre.
Claro cuerpo moreno de calor fecundante.
Hierba negra al origen. Hierba negra las sienes.
Trago negro los ojos, la mirada distante.
Día azul. Noche clara. Sombra clara que vienes.
Yo no quiero más luz que tu sombra dorada
donde brotan anillos de una hierba sombría.
En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada,
Para siempre es de noche: para siempre es de día.
Miguel Hernández
terça-feira, outubro 31, 2006
Espero que vuelvas pronto.
Quiero sentirte dentro esta noche,
sentirte dentro violento y fuerte.
Que en un instante pases de ser el amante apasionado
a un niño que tiembla dentro, dentro de mi.
Quiero que te abandones en mi cuerpo
hasta que no sepas donde estes y exhausto te derrumbes encima mio,
sudando, jadeando y buscando mi boca
como un vaso de agua fresca
en los veranos oscuros de mi alcoba…
pero estas lejos que ya casi no recuerdo el sabor de tu sudor…
Espero que vuelvas pronto.
desconheço
sentirte dentro violento y fuerte.
Que en un instante pases de ser el amante apasionado
a un niño que tiembla dentro, dentro de mi.
Quiero que te abandones en mi cuerpo
hasta que no sepas donde estes y exhausto te derrumbes encima mio,
sudando, jadeando y buscando mi boca
como un vaso de agua fresca
en los veranos oscuros de mi alcoba…
pero estas lejos que ya casi no recuerdo el sabor de tu sudor…
Espero que vuelvas pronto.
desconheço
sexta-feira, outubro 27, 2006
A boca
A boca
que primeiro levou
aos meus lábios a cor da aurora
ainda
em belos pensamentos desconto o aroma.
Ó pueril boca, amada boca,
que dizias o que ousavas e tão doce
eras a beijar.
Umberto Sava
que primeiro levou
aos meus lábios a cor da aurora
ainda
em belos pensamentos desconto o aroma.
Ó pueril boca, amada boca,
que dizias o que ousavas e tão doce
eras a beijar.
Umberto Sava
segunda-feira, outubro 23, 2006
Garcilaso de la Vega
Em minha alma é escrito vosso rosto
e quanto eu escrever de vós anseio:
vós sozinha o escrevestes, eu o leio
tão só que nisto vos evito a gosto.
Nisto estou e estarei sempre disposto
que, não cabendo em mim o meu enleio,
desse bem o que não entendo creio,
tornando já a fé por pressuposto.
Eu não nasci senão para querer-vos;
minha alma à sua altura vos talhou;
para hábito da minha alma vos quero;
quanto possuo confesso já dever-vos;
por vós nasci, por vós na vida estou,
por vós morro, por vós morrer espero.
Diria... fantastico
e quanto eu escrever de vós anseio:
vós sozinha o escrevestes, eu o leio
tão só que nisto vos evito a gosto.
Nisto estou e estarei sempre disposto
que, não cabendo em mim o meu enleio,
desse bem o que não entendo creio,
tornando já a fé por pressuposto.
Eu não nasci senão para querer-vos;
minha alma à sua altura vos talhou;
para hábito da minha alma vos quero;
quanto possuo confesso já dever-vos;
por vós nasci, por vós na vida estou,
por vós morro, por vós morrer espero.
Diria... fantastico
terça-feira, outubro 17, 2006
Aos amores
Aos amores!
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou lhe o gosto ao provar lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Sérgio Godinho
A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis
Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou lhe o gosto ao provar lhe o sabor
Os amores são facas de dois gumes
têm de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados
Sérgio Godinho
sexta-feira, outubro 13, 2006
Pois...
Qualquer semelhança com a realidade...
Um homem está a conduzir o seu carro, quando a certa altura percebe que se perdeu. Dá conta de outro homem que passa por perto, encosta ao passeio e chama-o:
- Desculpe, pode dar-me uma ajuda? Prometi a um amigo encontrar-me com ele às 14h, estou meia hora atrasado e não sei onde me encontro...
- Claro que o posso ajudar. O senhor encontra-se num automóvel, entre os 38 e os 39 graus de latitude norte e os 9 e 10 graus de longitude oeste, são 14 horas, 23 minutos e 42 segundos, hoje é quarta-feira e estão 27 graus centígrados.
- O senhor é informático?
- Exactamente! Como é que sabe?
- Porque tudo o que me disse está correcto do ponto de vista técnico, mas é inútil do ponto de vista prático. De facto, não sei o que fazer com a informação que me deu e continuo aqui perdido
- Então o senhor deve ser um chefe, certo? - responde o informático
- Na realidade sou mesmo. Mas... como percebeu?
- Muito fácil: não sabe nem onde se encontra, nem para onde ir; fez uma promessa que não faz a menor ideia de como vai cumprir e agora espera que outro qualquer lhe resolva o problema. De facto, encontra-se exactamente na mesma situação em que estava antes de nos encontrarmos, mas agora, por um qualquer estranho motivo... a culpa acaba por ser minha!
Um homem está a conduzir o seu carro, quando a certa altura percebe que se perdeu. Dá conta de outro homem que passa por perto, encosta ao passeio e chama-o:
- Desculpe, pode dar-me uma ajuda? Prometi a um amigo encontrar-me com ele às 14h, estou meia hora atrasado e não sei onde me encontro...
- Claro que o posso ajudar. O senhor encontra-se num automóvel, entre os 38 e os 39 graus de latitude norte e os 9 e 10 graus de longitude oeste, são 14 horas, 23 minutos e 42 segundos, hoje é quarta-feira e estão 27 graus centígrados.
- O senhor é informático?
- Exactamente! Como é que sabe?
- Porque tudo o que me disse está correcto do ponto de vista técnico, mas é inútil do ponto de vista prático. De facto, não sei o que fazer com a informação que me deu e continuo aqui perdido
- Então o senhor deve ser um chefe, certo? - responde o informático
- Na realidade sou mesmo. Mas... como percebeu?
- Muito fácil: não sabe nem onde se encontra, nem para onde ir; fez uma promessa que não faz a menor ideia de como vai cumprir e agora espera que outro qualquer lhe resolva o problema. De facto, encontra-se exactamente na mesma situação em que estava antes de nos encontrarmos, mas agora, por um qualquer estranho motivo... a culpa acaba por ser minha!
quarta-feira, outubro 04, 2006
Quarto em desordem
Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor
na quinta essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objecto mais vago do que núvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.
Carlos Drummond de Andrade
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não sabe como é feita: amor
na quinta essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objecto mais vago do que núvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo
verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, setembro 28, 2006
O amor é loucura
Quem pisa do Amor a linha pura,
não aceita uma asa, retira-a prudente,
pois não é verdadeiro Amor, mas loucura,
o juízo do destino e a sábia gente.
Tal como Roldão não chega à ventura
a sua fúria há-de mostrar-se noutro acidente
senão, vede o sinal para enlouquecer
por bem querer outro e se perder.
Diversos são os efeitos, mas a loucura
uma, pois perde-os sempre
é como numa selva espessa, escura,
onde qualquer um erra o seu caminho
e aqui ou lá o extraviado passo procura.
Digo, a concluir, que é sobejamente digno
o que envelhece amando, outra grande pena
a ter perene o cepo que nos condena.
Hão-de falar: “Vós sois garboso
ensinando o outro a andar em erro cego.”
Entendo, respondo confuso,
agora que vejo claro o falso jogo.
Bem o procuro e julgo ter repouso,
fugir quero do erro e do acerbo fogo,
mas não acabarei assim o caso,
pois o mal me penetrou até ao osso.
Ludovico Ariosto
não aceita uma asa, retira-a prudente,
pois não é verdadeiro Amor, mas loucura,
o juízo do destino e a sábia gente.
Tal como Roldão não chega à ventura
a sua fúria há-de mostrar-se noutro acidente
senão, vede o sinal para enlouquecer
por bem querer outro e se perder.
Diversos são os efeitos, mas a loucura
uma, pois perde-os sempre
é como numa selva espessa, escura,
onde qualquer um erra o seu caminho
e aqui ou lá o extraviado passo procura.
Digo, a concluir, que é sobejamente digno
o que envelhece amando, outra grande pena
a ter perene o cepo que nos condena.
Hão-de falar: “Vós sois garboso
ensinando o outro a andar em erro cego.”
Entendo, respondo confuso,
agora que vejo claro o falso jogo.
Bem o procuro e julgo ter repouso,
fugir quero do erro e do acerbo fogo,
mas não acabarei assim o caso,
pois o mal me penetrou até ao osso.
Ludovico Ariosto
segunda-feira, setembro 18, 2006
Não digas nada!
Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vâ
Toda esta viagem
Até onde quis.
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.
Fernando Pessoa
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vâ
Toda esta viagem
Até onde quis.
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz...
Não digas nada.
Fernando Pessoa
segunda-feira, setembro 11, 2006
Juan Luis Panero
Mensagem de António a Cleópatra
Elogiem outros
a tua beleza adormecida,
a suavidade da tua pele em repouso,
a medida perfeição dos teus membros.
Não foi para isso que vim,
vim tão somente penetrar-te
pelo peito e pelo dorso,
como um punhal atravessa
a água transparente
e se funde e se transvia
no poço sombrio
--------------------------------------------------------------------------------
Mensagem de Cleópatra a António
Não aplaudas a minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pelo peito e pelo dorso
faz-me pulsar a vida na cintura
e que enlaçados, o teu e o meu corpo,
possam deter o furor bárbaro do tempo.
Mas, se chegar o dia em que o tempo nos detém,
não te lamentes, oh meu estúpido beberrão,
e cai com valor – já Cavafis o escreveu –
nesse poço sombrio
(Antes que chegue a noite)
Elogiem outros
a tua beleza adormecida,
a suavidade da tua pele em repouso,
a medida perfeição dos teus membros.
Não foi para isso que vim,
vim tão somente penetrar-te
pelo peito e pelo dorso,
como um punhal atravessa
a água transparente
e se funde e se transvia
no poço sombrio
--------------------------------------------------------------------------------
Mensagem de Cleópatra a António
Não aplaudas a minha beleza,
outros já o fizeram.
Penetra-me pelo peito e pelo dorso
faz-me pulsar a vida na cintura
e que enlaçados, o teu e o meu corpo,
possam deter o furor bárbaro do tempo.
Mas, se chegar o dia em que o tempo nos detém,
não te lamentes, oh meu estúpido beberrão,
e cai com valor – já Cavafis o escreveu –
nesse poço sombrio
(Antes que chegue a noite)
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